Requisição de Compras
O ponto de partida do ciclo P2P: da necessidade ao pedido
Toda compra começa com uma necessidade. Alguém no almoxarifado percebe que um componente está acabando. A produção precisa de um material para um projeto. O RH precisa contratar um serviço. Essa necessidade precisa ser formalizada, aprovada e convertida em pedido. No SAP MM, esse processo começa com a Requisição de Compras (Purchase Requisition, ou PR).
A requisição é o documento interno que sinaliza ao departamento de compras que existe uma demanda. Ela não tem efeito financeiro direto (não movimenta caixa, não gera compromisso contábil), mas é o gatilho que dispara todo o ciclo de procurement.
Em muitas empresas, a requisição ainda é feita por e-mail, telefone ou planilha. O comprador recebe um “precisamos de papel A4” sem quantidade, sem prazo, sem centro de custo. A requisição no SAP elimina essa ambiguidade: força o solicitante a informar material, quantidade, data e classificação contábil. Isso muda a conversa entre as áreas e reduz drasticamente o retrabalho na mesa do comprador.
O que é (e o que não é) uma requisição
Muitos iniciantes confundem a requisição com o pedido. A diferença é fundamental:
| Aspecto | Requisição (PR) | Pedido de compra (PO) |
|---|---|---|
| Quem cria | Solicitante ou MRP | Comprador |
| Efeito externo | Nenhum (interno) | Enviado ao fornecedor |
| Efeito financeiro | Reserva orçamentária (opcional) | Compromisso financeiro |
| Aprovação | Workflow interno | Aprovação de compras |
| Rastreabilidade | Vinculada ao pedido gerado | Vinculada à requisição de origem |
A requisição pode ser criada manualmente pelo solicitante (ME51N) ou gerada automaticamente pelo MRP. Independentemente da origem, passa pelo mesmo fluxo de aprovação e conversão.
Tipos de item e campos essenciais
O SAP distingue os itens da requisição por tipo de item (item category):
| Tipo | Código | Descrição |
|---|---|---|
| Material padrão | (em branco) | Material com mestre, entra em estoque |
| Consumo direto | K | Sem entrada em estoque, vai direto ao centro de custo |
| Serviço | D | Aquisição de serviços, sem movimento de estoque |
| Subcontratação | L | Fornecedor processa material da empresa |
Na criação (ME51N), os campos que realmente importam por item são: número do material (ou grupo de mercadorias), quantidade, unidade de medida (deve coincidir com a do mestre), data de entrega (onde o lead time de compras começa a contar), centro/depósito e a classificação contábil (centro de custo, ordem, projeto, quando aplicável). O grupo de compras direciona a requisição para o comprador certo.
Vale a pena falar do campo de texto explicativo, subutilizado na maioria das implementações: ele permite ao solicitante especificar características técnicas e restrições de fornecedor. Bem usado, elimina uma pilha de idas e vindas entre comprador e solicitante.
O fluxo: da criação à conversão em pedido
Criação. O solicitante acessa o ME51N e preenche os dados. Se o material tem mestre, a maioria dos campos vem preenchida automaticamente (unidade, grupo de mercadorias, grupo de compras, classificação contábil padrão).
Aprovação (workflow). Conforme a configuração, a requisição passa por um ou mais níveis: liberação individual (ME54N) ou coletiva (ME55), com alçadas por valor.
Atribuição e conversão. Após aprovada, o comprador consulta as requisições abertas (ME56 por grupo de compras, ME57 para todas as pendentes) e converte em pedido. Na ME58, o sistema pode sugerir o fornecedor com base no Registro Info ou no contrato ativo.
Rastreabilidade total. Um dos grandes ganhos: você sempre sabe a origem de um pedido. Abrindo o pedido (ME23N), cada item traz, no campo Requisição de Compras, o número da requisição que o originou; e, abrindo a requisição (ME53N), a aba Status mostra o pedido que ela gerou. A cadeia é completa e auditável nos dois sentidos.
Requisição automática pelo MRP
Para materiais com planejamento ativo, o MRP gera requisições automaticamente quando o estoque cai abaixo do ponto de reposição ou quando há demanda de ordens de produção. Elas chegam com material e quantidade calculados, data de entrega baseada no lead time do mestre de material, centro e depósito preenchidos, e a marca de que vieram do planejamento. O comprador apenas verifica, ajusta se preciso, e converte, o que reduz drasticamente o trabalho manual em ambientes com centenas de materiais.
Erros comuns e boas práticas
Requisição sem data de entrega realista. Solicitantes que colocam “para ontem” em tudo criam falsa urgência e obrigam o comprador a negociar prazos internamente o tempo todo. Configure validações que bloqueiem datas abaixo do lead time médio e treine os solicitantes.
Material sem mestre. Requisições feitas só com descrição (sem número de material) são difíceis de analisar, não sugerem fornecedor e não aproveitam o histórico de preços. Cadastre o material antes; para compras eventuais, use o grupo de mercadorias adequado.
Aprovação como formalidade. Aprovadores que aprovam tudo sem olhar transformam o workflow em burocracia sem valor. Configure alçadas por valor e acompanhe o tempo médio de aprovação por área: isso cria responsabilidade.
Como boas práticas: padronize os grupos de compras para a requisição chegar ao comprador certo; configure tolerâncias de prazo para evitar urgências artificiais; use o campo de texto para especificações técnicas; monitore as requisições abertas (ME57) para achar gargalos; e revise as requisições geradas pelo MRP antes de converter, porque o planejamento pode estar desatualizado.
Conclusão
A requisição é o ponto de partida de todo o processo de aquisição. Uma requisição bem estruturada acelera tudo o que vem depois: cotação, pedido, recebimento, pagamento. Uma requisição ruim, sem informação e sem prazo real, contamina a cadeia inteira. Treinar solicitantes e configurar bem esse processo é um dos melhores retornos que uma implantação SAP pode dar: o comprador ganha tempo para negociar, a empresa ganha rastreabilidade e o financeiro ganha previsibilidade.
No próximo artigo, a Cotação: como comparar propostas de fornecedores e registrar a melhor decisão de compra de forma objetiva e auditável.