Mestre de Material
Como criar e estruturar o cadastro de materiais do zero
Era a segunda semana de setembro. A equipe de compras havia emitido um pedido para 500 unidades de um componente crítico. O SAP aceitou sem reclamar. Três semanas depois, quando a Nota Fiscal chegou, a entrada de mercadorias travou completamente: a unidade de medida no pedido era “UN” (unidade), mas a nota vinha em “CX” (caixa, com 12 unidades cada). O sistema não conseguia processar a conversão porque ninguém havia cadastrado essa equivalência no Mestre de Material.
Resultado: nota fiscal parada, fornecedor ligando todo dia, estoque recebido fisicamente mas não lançado, e o gerente de supply chain com um problema que “o SAP criou”. Só que, na verdade, o problema nasceu antes, no momento em que alguém preencheu o cadastro às pressas.
Esse cenário se repete em empresas de todos os tamanhos, e a raiz tem nome: Mestre de Material mal estruturado.
O que é o Mestre de Material, e por que é o coração do SAP MM
O Mestre de Material (Material Master) é o registro central de dados de um material no SAP: a principal fonte de dados específicos de material de uma empresa.
Pense assim: cada vez que você cria um pedido de compra, o SAP busca o texto breve, a unidade de medida e o grupo de mercadorias direto do Mestre de Material. Na entrada de mercadorias (MIGO), o sistema consulta o tipo de avaliação e o controle de preço que estão ali. Quando o MRP roda e gera uma requisição, os parâmetros usados (estoque mínimo, lote de reposição, prazo de entrega planejado) também vieram de lá.
Em outras palavras: não existe processo de compras, estoque ou planejamento confiável sem um Mestre de Material bem estruturado. Compras, Estoque, MRP, Verificação de Faturas e até a Contabilidade se alimentam dos mesmos dados. Quando estão corretos, os processos fluem. Quando estão errados ou incompletos, o efeito cascata é inevitável, em geral aparecendo no pior momento possível.
A estrutura: visões, níveis e tipos
Antes de abrir o MM01 e sair preenchendo campos, entenda a lógica. O Mestre de Material não é um formulário plano: é organizado em dois eixos, visões e níveis organizacionais.
Visões: cada departamento tem a sua
Os dados de um material são divididos em visões (views) que representam diferentes funções da empresa:
- Dados Básicos (Basic Data). Informações válidas para toda a empresa: descrição (texto breve), unidade de medida básica, grupo de mercadorias, peso, EAN. São globais, valem para o mandante inteiro.
- Compras (Purchasing). Grupo de compradores, unidade de medida do pedido (que pode diferir da básica), texto do pedido, tempo de processamento de entrada. É onde o SAP sabe “como comprar” o material.
- MRP 1 a 4. O coração do planejamento: tipo de MRP (PD para necessidades, VB para ponto de reposição, VM para consumo), estoque de segurança, ponto de reposição, tamanho de lote, prazo planejado. Um campo errado aqui gera ordem equivocada: sobra num item, falta em outro.
- Contabilidade (Accounting). Onde o material ganha valor, e onde vivem dois campos decisivos: a Classe de Avaliação (Valuation Class), que determina em quais contas contábeis o material entra, via determinação automática de contas (OBYC); e o controle de preço, S (Standard / Padrão) ou V (Moving Average / Médio Móvel), com impacto direto no balanço. É o elo entre logística e finanças.
- Dados de Centro/Depósito. Posição no depósito, tempos de entrada e saída, quantidade mínima de reposição. Críticos em operações com WM/EWM.
Níveis organizacionais: o dado vale para quem?
Aqui está o conceito que muitos iniciantes ignoram, e que aparece no diagrama acima. Alguns dados valem para todo o mandante (a descrição, a unidade básica). Outros valem só para um centro (grupo de compradores, controle de preço). E outros, só para um depósito (a posição no estoque).
Ou seja: o mesmo material pode se comportar de forma diferente conforme o centro onde é processado. Um item fabricado em São Paulo pode ter parâmetros de MRP diferentes dos de Manaus. Isso é um recurso, não um defeito, desde que você saiba usar.
Tipo de Material: o campo que poucos entendem
Ao abrir o MM01, a primeira coisa que o SAP pede é o Tipo de Material (Material Type). Ele não é só uma categoria: é um controlador de comportamento. Define a atribuição de numeração (interna ou externa), quais visões serão sugeridas, quais tipos de suprimento são permitidos (fabricação própria, compra externa ou ambos) e se o estoque é gerido por quantidade e/ou por valor.
Os tipos mais comuns no SAP padrão:
| Código | Descrição |
|---|---|
| ROH | Matéria-Prima |
| HALB | Produto Semiacabado |
| FERT | Produto Acabado |
| HIBE | Materiais Auxiliares e de Consumo |
| NLAG | Material Não Estocável |
| DIEN | Serviço |
| LEIH | Embalagem Retornável |
Erro clássico: usar o tipo errado na criação. O tipo de material até pode ser alterado depois (via MMAM), mas com restrições e impactos; e o setor industrial nunca pode ser alterado após a criação. Escolher errado aqui costuma exigir recriar o material.
As transações que você precisa dominar
- MM01 — Criar Material. Você informa número (ou deixa o SAP gerar), tipo de material e setor industrial; seleciona as visões, informa os níveis (centro, depósito) e preenche cada visão. No S/4HANA, o app Fiori “Criar Material” substitui a transação com uma interface mais moderna.
- MM02 — Modificar. Toda alteração fica no histórico (quem mudou o quê e quando), com rastreabilidade total.
- MM03 — Exibir. Consulta sem risco de alterar nada. Use sempre que só precisar conferir.
- MM60 — Lista de Materiais. Relatório que lista materiais por tipo, grupo de mercadorias, centro etc. Ótimo para análises em massa e auditoria de dados mestres.
- MM50 — Estender visões. Lista os materiais que estão com visões faltando e permite completá-las em lote (dar visão de MRP ou de um novo centro a vários materiais de uma vez). É uma transação clássica, presente desde o ECC, muito útil em rollouts e na faxina de cadastros incompletos.
Os erros clássicos que um cadastro mal feito causa
Unidades de medida inconsistentes. O fornecedor vende em caixas, mas o material está em unidades. Sem a conversão nas “unidades de medida alternativas”, a entrada de mercadorias trava. Ou, pior, gera quantidades erradas silenciosamente. Foi o caso da abertura deste artigo.
Classe de Avaliação errada. É ela, na visão de Contabilidade, que define em qual conta contábil o material entra, via determinação automática (OBYC). Uma classe errada manda o material para a conta errada, silenciosamente, e o problema só aparece no fechamento. (O grupo de mercadorias, por sua vez, serve à classificação, aos relatórios e ao processo de compras; só influencia contas em cenários específicos, como materiais de consumo sem cadastro.)
Visão de MRP em branco. Material sem as visões de MRP é invisível para o planejamento: o MRP simplesmente o ignora. Resultado: ruptura não prevista e reposição na urgência.
Controle de preço equivocado. Escolher Médio Móvel para um produto acabado, ou Standard para uma matéria-prima de mercado, gera inconsistências que só aparecem no fechamento, quando já se multiplicaram.
Material duplicado. Sem governança, o mesmo item físico acaba cadastrado com dois ou três números. O estoque fragmenta, o histórico de compras pulveriza e os relatórios deixam de refletir a realidade.
Mestre de Material no S/4HANA
O conceito se mantém, com evoluções importantes:
- Apps Fiori para criar, exibir e modificar materiais, com interface responsiva.
- Integração com o Material Ledger obrigatória, o que torna o controle de preço e os dados de avaliação ainda mais críticos.
- APIs que abrem caminho para integrações com PLM, sistemas de fornecedor e marketplaces B2B.
A lógica de visões permanece a mesma; o S/4HANA moderniza a gestão, especialmente para equipes que trabalham em vários dispositivos.
Dicas práticas
Defina um padrão antes de começar. Um template com os campos obrigatórios por tipo de material, e a documentação de qual classe de avaliação usa qual conta contábil, previne a maior parte dos problemas antes que eles aconteçam.
Não pule visões “para completar depois”. “Depois” raramente chega, e o processo que precisar daquele dado vai falhar na hora errada.
Padronize as descrições. Um texto breve consistente (TIPO + DESCRIÇÃO + ESPECIFICAÇÃO) facilita buscas, evita duplicidades e profissionaliza os relatórios.
Revise periodicamente. Use o MM60 para achar materiais sem estoque, sem movimento há mais de 12 meses ou sem visões de MRP. Dado mestre é dado vivo: precisa de manutenção.
Implemente governança de criação. Defina quem cria, quem aprova e quais campos são obrigatórios. Sem processo, cada área cria do seu jeito, e o caos volta.
Conclusão
O Mestre de Material é onde o SAP conecta o mundo físico ao digital: cada caixa no depósito, cada componente na linha, cada insumo na fórmula tem uma representação no sistema, e ela precisa ser fiel. Dominar a estrutura e a governança do cadastro é o que diferencia um usuário de um especialista, porque o que importa não é operar o MM01, e sim entender o impacto de cada campo em cada processo.
No próximo artigo, o Mestre de Fornecedor: o cadastro de fornecedores e a mudança de paradigma que o S/4HANA trouxe com o Business Partner.